"Sala de Aula Invertida - uma Metodologia Ativa de Aprendizagem". Resumo e reflexão#2



Depois do resumo da primeira parte do livro "Sala de Aula Invertida - uma Metodologia Ativa de Aprendizagem", farei neste artigo um resumo da segunda parte desta obra, dedicada à Sala de Aula Invertida para a Aprendizagem do Domínio.

Bergmann e Sams referem que 
A aprendizagem para o domínio já existe há muito tempo. Foi lançada na década de 1920, mas recebeu pouca atenção até à década de 1960, quando foi popularizada por Benjamin Bloom, que comparou as atuais instituições educacionais a uma corrida em que apenas os aprendizes mais rápidos são recompensados.

(Bergmann e Sams, 2018)

A ideia básica da aprendizagem para o domínio consiste em que "todos os alunos alcancem uma série de objetivos ao próprio ritmo".

Com a imagem seguinte pretende-se esquematizar os principais componentes da aprendizagem para o domínio:



A aprendizagem para o domínio pode ser facilitada e potenciada se associada à inversão da sala de aula:

A sala de aula invertida de aprendizagem para o domínio associa os princípios de aprendizagem para o domínio à tecnologia de informação para criar um ambiente de aprendizagem sustentável, replicável e gerenciável.

 (Bergmann e Sams, 2018)

Bergmann e Sams descrevem uma sala de aula típica deste modelo: no início da aula, os alunos organizam-se em grupo e o professor conversa com todos os grupos verificando em que ponto do trabalho se encontram, se precisam de recursos específicos, se apresentam dificuldades no seu progresso. O apoio na fase inicial do trabalho é fundamental, mas o objetivo é que os alunos se autorregulem, aprendam de forma autónoma e se crie em sala de aula um ambiente de colaboração entre pares. 

Para que este processo seja eficaz, os autores identificam algumas caraterísticas indispensáveis ao professor:

  1. O professor deve dominar o conteúdo (porque lhe será exigida uma flexibilidade mental elevada e uma compreensão abrangente dos conteúdos);
  2. O professor deve ser capaz de admitir quando não sabe a resposta para as perguntas dos alunos e precisa de estar disposto a pesquisar a resposta com eles (ensinando os alunos a aprender de forma autónoma);
  3. O professor deve ser capaz de se movimentar durante toda a aula de maneira não linear (porque cada grupo estará num estágio diferente da aprendizagem);
  4.  O professor precisa de renunciar ao controlo do processo de aprendizagem pelos alunos.
Antes de iniciar o processo da sala de aula invertida de aprendizagem para o domínio, Bergmann e Sams sugerem cinco componentes que não podem ser esquecidos:

Bergamnn e Sams sugerem que no início de cada unidade seja fornecido aos alunos um guião de organização que contenha "uma lista de objetivos, os vídeos correspondentes, as leituras dos livros / textos, as atividades de aprendizagem e as atividades de laboratório".

Algumas vantagens do modelo invertido de aprendizagem para o domínio

  • Ensina os alunos a assumirem a sua responsabilidade pela própria aprendizagem.
         O modelo tradicional os alunos esperam que lhes digam o que aprender, como aprender, quando aprender e como demonstrar o que aprenderam. No modelo invertido de aprendizagem para o domínio o ónus da aprendizagem passa para os alunos.

  • Facilita a personalização e diferenciação do ensino
         A assincronia das tarefas permite que os alunos progridam ao seu ritmo e que o professor se foque nas dificuldades de cada aluno ou grupo em específico.

  • Desloca a aprendizagem para o centro da sala de aula
          Para reforçar a ideia de que o foco da sala de aula é o aluno e não o professor, os autores sugerem que o termo "sala de aula" - conotado com o professor no centro do processo - seja substituído por "espaço de aprendizagem". A ideia é transmitir que o "objetivo de ir à escola é aprender e não ser ensinado.
  • Permite feedback instantâneo e reduz a "papelada" do professor
Uma vez que o método assume uma proximidade elevada entre alunos e professor, que deve monitorizar a evolução e dificuldades dos alunos, a avaliação formativa informal é uma constante e elimina a necessidade de avaliações formativas formais como testes formativos que correspondem a um volume de trabalho acrescido para o professor.
A avaliação formativa informal tem a vantagem de ser imediata - perante as dificuldades dos alunos, o professor analisa com eles os equívocos e planeiam em conjunto a melhor maneira de os corrigir.
Bergamann e Sams referem que a tecnologia pode ter um papel importante neste feedback instantâneo. Os testes online, de correção automática, permitem que os alunos possam testar os seus conhecimentos e analisem com o professor os seus erros, recebendo um feedback oportuno e essencial para a rápida correção de erros e omissões. 
"Este feedback imediato é elemento crítico do modelo invertido de aprendizagem para o domínio, uma vez que os alunos devem dominar os objetivos de cada unidade antes de avançar para a seguinte."
(Bergmann e Sams, 2018)

  • Oferece oportunidades de recuperação
Uma vez que o professor deve circular pela aula enquanto os alunos fazem as suas tarefas, há a oportunidade de observar o trabalho dos alunos, questioná-los, verificar o seu progresso e corrigir erros, o que evitará problemas futuros.
A identificação de alunos com dificuldade em compreender determinados objetivos permite uma ação mais individualizada e focada nesses alunos, com sessões de reforço e revisão.
  • Permite vários meios para a aprendizagem do conteúdo
O facto do professor disponibilizar vídeos como recurso educativo, não significa que o aluno tenha de recorrer a eles para dominar os objetivos. Bergamnn e Sams sublinham que  para além dos vídeos e tarefas propostas em sala de aula, cada conjunto de objetivos indica as secções a estudar do manual. Isto significa que os alunos são livres de compreender os conteúdos tanto através de vídeos, como de livros ou da Internet. Cada aluno deve descobrir como aprende melhor.
Ao garantir aos alunos a escolha de como aprender, também lhes conferimos o controlo da própria aprendizagem.

 (Bergmann e Sams, 2018)

  • Oferece várias hipóteses para demonstrar as aprendizagens
Bergamnn e Sams salientam que optaram por oferecer aos estudantes vários métodos de expressão, permitindo que os alunos comprovem o domínio dos objetivos por vários meios, como exames sumativos, discussões, apresentações eletrónicas, vídeos curtos, relatórios ou outros métidos desenvolvidos pelos alunos. Esta estratégia, na sua ótica, diversificou os meios de avaliação, beneficiando alunos com caraterísticas próprias e desenvolvendo competências transversais.

  • Muda o papel do professor
Se no modelo tradicional o professor surge como "transmissor de informação", posicionando-se geralmente na frente da sala e "comandando o espetáculo", na sala de aula invertida para a aprendizagem do domínio, o papel do docente é ajudar os alunos, orientar pequenos grupos e trabalhar com indivíduos com dificuldades. A principal função do professor passa a ser "apoiar e motivar os alunos ao longo do processo de aprendizagem".

Conclusão

Do meu ponto de vista, a sala de aula invertida para a aprendizagem é uma metodologia cujo principal ponto forte será a aposta na autorregulação do aluno.

O facto de o aluno passar a ser o responsável pela sua aprendizagem pode desenvolver competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida e para a vida ativa, tais como autonomia, persistência, responsabilidade.

Do ponto de vista do professor, a reorganização do processo de ensino-aprendizagem exigirá naturalmente uma adaptação nem sempre fácil. Para que o método seja interessante, é necessário apostar em estratégias ativas por parte dos alunos, tarefas apelativas e cativantes que têm de ser pensadas e testadas. A flexibilidade que se exige ao docente poderá também ser uma dificuldade a não desprezar, especialmente se esse docente tiver por natureza uma postura de rigidez e controlo no processo de trabalho em sala de aula. Por outro lado, depois do método implementado, o esforço físico exigido ao professor pode diminuir, já que deixa de ter de controlar toda uma turma enquanto expõe matéria, elevando a voz e mantendo a atenção no comportamento de toda uma turma - em vez disso, o seu trabalho concentrar-se-á mais em pequenos grupos de trabalho.

Não me parece viável assumir uma mudança de paradigma radical do ensino tradicional para a sala de aula invertida para a aprendizagem. Mas parece-me exequível e muito interessante aplicar esta metodologia num bloco de aulas testando hipóteses e explorando potencialidades. A pedagogia é uma ciência onde o estagnar não faz sentido!


Referências

Bergmann, J. e Sams, A. (2018). Sala de aula invertida: Uma metodologia ativa de aprendizagem. Rio de Janeiro: LTC.

 

         







 

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