Taxonomia de Bloom e sala de aula invertida


Artigo inspirado pela lição "Bloom's Taxonomy and Flipped Classrooms" do curso Flipped Learning 3.0 Certification Level - I Masterclass, da Flipped Learning Global Iniciative.

Em 1948, a Associação Norte Americana de Psicologia solicitou a alguns dos seus membros que discutissem e propusessem uma taxonomia (uma classificação e organização de conceitos) dos objetivos e processos educativos. Em 1956, Bejamin Bloom, em colaboração com Max Englehart, Edward Furst, Walter Hill e David Krathwohl, propuseram como principais eixos do processo educativo os domínios do desenvolvimento cognitivo, afetivo e psicomotor. Embora todos os envolvidos tenham trabalhado significativamente no desenvolvimento do trabalho, o resultado passou a ser referido como a taxonomia de Bloom.

Figura 1 - Os três domínios da taxonomia de Bloom

A taxonomia de Bloom inclui os objetivos agrupados por domínios, sendo neste artigo focado o domínio cognitivo, aquele relacionado com o aprender, o dominar um conhecimento. Este é o domínio onde cabe a aquisição de aprendizagens, desenvolvimento intelectual, habilidades e atitudes.  Abrange o reconhecimento de fatos específicos, procedimentos padrões e conceitos que estimulam o desenvolvimento intelectual.

Os objetivos do domínio cognitivo, que foram já alvo de atualização no século XXI, estão agrupados em seis categorias sendo apresentados numa hierarquia de complexidade e de dependência, do mais simples ao mais complexo. A ideia é que para um aluno ascender a uma nova categoria, precisa de ter dominada a categoria anterior - a categorias mais altas correspondem competências de nível superior que exigem o controlo de competências de nível inferior, menos exigentes do ponto de vista cognitivo.

As categorias do domínio cognitivo da taxonomia de Bloom são, da hierarquia mais baixa para a mais alta, a memorização, a compreensão, a aplicação, a análise, a avaliação e a criação. O esquema seguinte pretende esquematizar a taxonomia proposta e tornou-se bastante famoso por representar a estrutura do pensamento.

Figura 2 - Taxonomia de Bloom
Tradução: Ana Carneirinho

A hierarquia definida na taxonomia de Bloom, estruturando níveis de complexidade cognitiva crescente, do simples para o complexo e do concreto para o abstrato, torna esta proposta  não apenas um esquema para classificação de processos cognitivos, mas uma base para tomar decisões ao nível de planeamento pedagógico. De facto, em educação, a definição de objetivos de aprendizagem deve obedecer a um processo estruturado que, de forma consciente, crie oportunidades de mudança de pensamentos, ações e condutas. Para isso é fundamental a escolha adequada de conteúdos, procedimentos, atividades, estratégias e instrumentos de avaliação, i.e., a definição de uma metodologia  adequada ao contexto e recursos disponíveis, o que não deve ser desenhado sem a compreensão da construção cognitiva dos indivíduos.

Taxonomia de Bloom e sala de aula invertida

Ao analisar a taxonomia de Bloom, apercebemo-nos que, em sala de aula tradicional, a maior parte do tempo de interação professor-aluno está dedicada aos objetivos de nível mais baixo, a memorização e a compreensão. Ora será no cumprimento destes objetivos que os alunos menos precisarão do professor, já que são níveis menos abstratos e mais simples. O natural é que os alunos sintam mais dificuldades nos níveis superiores e será mais significativa a ajuda do professor em níveis mais elevados da taxonomia de Bloom.

A sala de aula invertida pode ser um meio para ganhar mais tempo e apostar no apoio do professor nos níveis mais altos da referida taxonomia. Na verdade, ao deixar de dar tanto peso à transmissão de informação em contexto de sala de aula, permitindo que os alunos tenham com antecedência acesso aos conteúdos (que podem de forma autónoma memorizar e compreender),  criam-se condições para usar o período em que o professor está disponível para aplicar, analisar avaliar e criar, recorrendo a estratégias ativas onde o recurso ao professor pode ser mais eficiente e mais importante.

Pode tentar passar-se esta ideia invertendo o triângulo da taxonomia de Bloom, refletindo a ideia que em sala de aula se deve dar maior ênfase a objetivos de nível mais alto e menor ênfase aos de nível mais baixo, que os alunos podem atingir com maior autonomia.

Figura 3 - Triângulo da taxonomia de Bloom invertido

Uma maior reflexão, no entanto, leva-nos a concordar com Bergmann que sugere como mais realista, em vez de um triângulo invertido, uma forma de diamante para representar graficamente o peso que deverão ter cada um dos objetivos da taxonomia de Bloom em contexto de sala de aula invertida.

Figura 4 - Taxonomia de Bloom em forma de diamante



A comparação entre a gestão de tempo para cada um dos objetivos da taxonomia de Bloom em sala de aula tradicional e a sala de aula invertida pode ser ilustrada pela figura seguinte:

Figura 5 - Gestão de tempo em relação aos objetivos da taxonomia de Bloom em sala de aula virtual e sala de aula invertida
Tradução: Ana Carneirinho

Conclusão

Estaremos a aproveitar devidamente o tempo que passamos com os nossos alunos?

A reflexão quanto à hierarquia e à importância em termos de complexidade e abstração dos vários objetivos da taxonomia de Bloom deve fazer-nos ponderar as estratégias que adotamos em sala de aula.

É curioso reconhecer que a aula mais tradicional, com o professor a falar durante largos minutos, apela a objetivos de nível mais baixo e que é verdade que a aplicação e análise é remetida para trabalho de casa, quando o aluno está sozinho e mais desacompanhado.

Vale a pena pensar na gestão de sala de aula e em como potenciar o tempo que estamos em contacto com os alunos, encontrando estratégias para permitir que os alunos tenham a ajuda do professor quando precisam, i.e., quando são confrontados com tarefas mais complexas.

A inversão da sala de aula pode ser um caminho que conduza ao enriquecimento do processo de ensino-aprendizagem, possibilitando estratégias mais ativas e a exploração  de objetivos da taxonomia de Bloom de nível mais alto, mais complexos, mais abstratos.

A sala de aula invertida pode ser também um fator de inclusão e de maior igualdade, uma vez que, ao remeter para trabalho de casa tarefas menos exigentes do ponto de vista cognitivo, diminuímos a diferença a que estão sujeitos alunos com e sem apoio em casa.

Num mundo em que a desigualdade é gritante e num país em que a escola não corresponde ainda ao elevador social que se deseja, talvez valha a pena repensar as nossas opções pedagógicas...






Artigos consultados:


Armstrong, P. (2010). Bloom’s Taxonomy. Vanderbilt University Center for Teaching. Consultado a 13/04/2022.  https://cft.vanderbilt.edu/guides-sub-pages/blooms-taxonomy/.

Gomes, L. & Paul, A. (2018). Scaffolding learning and maximising engagement. Nativas. Consultado a 13/04/2022. https://learningandteaching-navitas.com/scaffolding-learning-maximising-engagement/

Ferraz, A. P. D. C. M., & Belhot, R. V. (2010). Taxonomia de Bloom: revisão teórica e apresentação das adequações do instrumento para definição de objetivos instrucionais. Gestão & produção17, 421-431.

Ribeiro, L. O. M., & Guarenti, R. G. (2015). EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA-SUPERAÇÃO DE DESAFIOS DE APRENDIZAGEM EM FÍSICA ATRAVÉS DA ROBÓTICA EDUCACIONAL TECHNOLOGICAL EDUCATION-OVERCOMING CHALLENGES OF LEARNING IN PHYSICS THROUGH EDUCATIONAL ROBOTICS.

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