O professor num mundo educativo em mudança


O surgimento de uma nova realidade hiperconetada, o compreender o online como uma extensão indistinta do mundo físico, as potencialidades dos ambientes virtuais para a aprendizagem, os ecossistemas educativos emergentes...todos estes conceitos, não podendo ser ignorados pelo professor do século XXI, são um verdadeiro desafio em termos profissionais. 

Se é verdade que a aprendizagem ao longo da vida é uma realidade para muitos grupos profissionais, será certamente inquestionável para a classe docente, que tem de lidar com constantes atualizações de forma muitas vezes informal e autodidata. 

Um professor que no início do século XXI começou a contactar com o digital de forma incipiente, teve de se adaptar nos últimos 20 anos ao surgimento da internet, à democratização dos computadores, ao surgimento dos smartphones, ao uso de vários softwares a que teve de se ambientar para tarefas administrativas, ao recurso ao digital em sala de aula. Hoje, a esse professor solicita-se que pense o digital não como uma ferramenta, mas como um ambiente pedagógico, que repense a forma de ensinar e de aprender para responder aos desafios desta nova sociedade em rede. 

Já em 2013 a União Europeia (Comissão Europeia, 2013) reconhecia que "a tecnologia e os recursos educativos abertos constituem oportunidades para remodelar a educação na UE". No artigo Abrir a Educação: Ensino e aprendizagem para todos de maneira inovadora graças às novas tecnologias e aos Recursos Educativos Abertos é mencionada a necessidade de apostar no digital em ambiente educativo, por serem as tecnologias digitais indissociáveis das economias do século XXI, não sendo à data, no entanto, devidamente exploradas nos sistemas de educação e formação europeias.  

São apontados nesse documento como potenciais benefícios da revolução digital no domínio da educação: 

  • Possibilidade de alargar a quantidade de fontes de informação, deixando o professor de ser a única fonte de conhecimento; 
  • Personalização de horários e métodos específicos de ensino/aprendizagem; 
  • Deslocalização da sala de aula; 
  • Possibilidade de surgimento de novos prestadores de serviços de educação; 
  • Partilha de conteúdos entre professores e entre professores e alunos, mesmo que geograficamente distantes; 
  • Acesso a um conjunto mais vasto de recursos educativos. 

O referido artigo, reconhecendo que "os professores têm sido ao longo dos anos, os constantes promotores de inovação nas nossas instituições de ensino", adverte que é urgente "privilegiar as competências pedagógicas digitais" não só na formação inicial de professores, como na formação contínua, apostando na atualização da classe docente. 

Moreira (2018) refere a importância de serem os próprios professores a "apropriar-se das vantagens [das] tecnologias, [usando-as] na criação de novos ambientes de aprendizagem, mais motivadores, mais estimulantes e, sobretudo, [que] sejam capazes de desenvolver, nos seus estudantes, as competências essenciais para a sua integração nesta nova era digital do século XXI". 

Não sendo este o objetivo deste artigo, apresentam-se no quadro seguinte as competências para o século XXI sugeridas pelo World Economic Forum  (WEF)

Competências para o século XXI (WEF, 2015)
Tradução: Ana Carneirinho

Em 2017, é publicado pela Comissão Europeia o documento European Framework for the Digital Competence of Educators. Este documento, traduzido em 2018 para português sob o título DigCompEdu - Quadro Europevu de Competência Digital para Educadores, apresenta o referido quadro com o objetivo de "ajudar os estados membros a promover a competência digital dos seus cidadãos e impulsionar a inovação na educação".


O quadro referido:


responde à consciencialização crescente entre muitos estados membros europeus que os educadores precisam de um conjunto de competências digitais específicas para a sua profissão de modo a serem capazes de aproveitar o potencial das tecnologias digitais para melhorar e inovar a educação. 


(Quadro Europeu de Competência Digital para Educadores, 2018: 8) 


São 22 as competências elementares dos educadores identificadas no Quadro DigCompEdu, organizadas em 6 áreas:


Quadro DigComEdu



É nas competências pedagógicas dos educadores que se encontram as competências digitais que os educadores precisam para promover estratégias de ensino e aprendizagem eficientes, inclusivas e inovadoras.  


A necessidade de desenvolver estas competências nos educadores tornou-se evidente quando em 2020, por força da pandemia COVID-19, ocorreu a suspensão das aulas presenciais, o que obrigou a uma mudança rápida para o ensino remoto de emergência. De volta ao ensino presencial, há que refletir sobre a prática que se desenvolveu em torno das tecnologias digitais e, fundamentalmente, capitalizar os avanços em termos de aquisição de equipamentos digitais e competências adquiridas. A este respeito, Moreira e Horta defendem que  


em vez de retornar totalmente à forma como a educação escolar funcionava, é possível pensar numa educação mais blended, mais híbrida, nomeadamente, através de processos de inovação sustentada, que permitam combinar diferentes presenças (físicas e digitais), tempos (síncronos e assíncronos), tecnologias (analógicas e digitais), culturas (pré-digital e digital) e, sobretudo, articular diferentes espaços e ambientes de aprendizagem (analógicos e digitais). 


Moreira e Horta (2020, p. 4) 


Surge assim uma oportunidade de hibridização do ensino numa simbiose entre a educação digital e o ensino tradicional, uma estratégia de diferenciação metodológica que quebra as fronteiras entre o presencial e o virtual, impulsionando uma estratégia de ensino mais dinâmica, interativa e flexível. Será caso para dizer que nunca o Quadro DigCompEdu fez tanto sentido…  


Há então que assumir a era digital que vivemos em termos de educação. Não se trata simplesmente de fazer uso das tecnologias numa perspetiva meramente instrumental, mas apostar antes, de acordo com Moreira et al. (2020), numa 


educação digital em rede de qualidade, (…) perspetivando um novo paradigma de Educação mais híbrida, de maior convergência entre realidades biológicas e físicas com realidades digitais e virtuais. 


Moreira et al. (2020, p. 3) 


Tornam-se evidentes os desafios que o ensino digital coloca aos professores de hoje, logo à partida pela permanente formação, dada a velocidade a que a tecnologia evolui. Mas não só. O design de aprendizagem deve, de acordo com Moreira et al. (2020, 47) “fazer apelo à participação dos estudantes, à sua experiência (conhecimentos prévios) e à construção autónoma do conhecimento”, assim como “fomentar os diferentes tipos de interações”. A escolha dos recursos é outro fator a ter em conta, dada a flexibilidade que o digital promove, assim como as práticas de avaliação digital, que também terão de ser alvo de reflexão e ponderação.  


Num mundo em mudança, nunca se pediu tanta adaptabilidade à classe docente. A maioria dos professores reconhecem a importância da mudança e estão recetivos a mudar práticas e a transformar a sala de aula. Mas há obstáculos que é necessário encarar: 

  •  A extensão dos currículos e o modelo de avaliação externa. Os currículos e o paradigma de avaliação têm de ser revistos num processo em que os professores devem ser ouvidos. Pedagogias ativas e centradas no aluno exigem tempo, o que não se coaduna com a extensão das atuais aprendizagens essenciais; 
  • O parque informático das escolas está obsoleto e muitas vezes inoperacional. A rede de internet é instável ou mesmo inexistente em algumas escolas. Não é possível integrar o digital se não há sequer internet disponível; 
  • A inexistência de técnicos de informática nas escolas. O parque informático é mantido na maioria das escolas à custa da boa vontade de um grupo restrito de pessoas, muitas vezes sem os conhecimentos informáticos necessários a tal tarefa (basta pensar na cibersegurança associada a tantos estabelecimentos escolares, tratada de forma amadora por falta de técnicos devidamente certificados); 
  • A necessidade de formação por parte dos professores. A formação dos professores é feita fora do seu horário de trabalho, com muito pouco incentivo profissional - havia que apostar em formação específica em moldes mais adequados à vida profissional e pessoal dos docentes. 

Há também pontos positivos a referir, nomeadamente a constituição de equipas constituídas por professores dentro da escola que integram o Plano de Ação para o Desenvolvimento Digital (PADD), e que podem ser núcleos de mudança com atividades desenhadas para a realidade específica de cada escola. 

O digital é uma realidade nas nossas vidas. Que o seja também nas escolas, superando as muitas dificuldades com a certeza que não faz sentido ignorar todo o seu potencial no contexto educativo de hoje.  

 
Referências: 

Europeia, C. (2013). Abrir a Educação: Ensino e aprendizagem para todos de maneira inovadora graças às novas tecnologias e aos Recursos Educativos Abertos. Bruxelas: Serviço de Publicações da Comissão Europeia. 

Lucas, M., & Moreira, A. (2018). DigCompEdu: quadro europeu de competência digital para educadores. Aveiro: UA 

Moreira, J. A. (2018). RECONFIGURANDO ECOSSISTEMAS DIGITAIS DE APRENDIZAGEM COM TECNOLOGIAS AUDIOVISUAIS. EmRede - Revista De Educação a Distância, 5(1), 5-15. Recuperado de https://www.aunirede.org.br/revista/index.php/emrede/article/view/305  

Moreira, J. A., & Horta, M. J. (2020). Educação e ambientes híbridos de aprendizagem. Um processo de inovação sustentada. Revista UFG, 20.  

Moreira, J. A., Henriques, S., Barros, D. Goulão, M., Caeiro, D. (2020). Educação Digital em Rede: Princípios para para o Design Pedagógico em Tempos de Pandemia. Coleção Educação a Distância e eLearning. Universidade Aberta 


 


 

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