Para
compreender o termo cibercultura, talvez seja importante referir a visão de
Levy relativamente à internet como um fenómeno social recorrente, mais uma mudança
dos média na sociedade, e não como um fenómeno social único. Na verdade, Lévy
carateriza a comunicação digital não como uma fratura com o passado, mas como
um culminar de um “movimento de virtualização iniciado há muito tempo pelas
técnicas mais antigas, como a escrita, a gravação de som e imagem, o rádio, a
televisão e o telefone.”
O termo “ciberespaço”,
ou “rede”, desponta neste contexto como “o novo meio de comunicação que surge da
interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infraestrutura
material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações
que ela abriga, assim como os seres humanos”.
O ciberespaço
é portanto uma nova realidade que permite a interconexão entre indivíduos de
todos os pontos do mundo em qualquer instante. Pierre Lévy reforça que este
ciberespaço é a evolução de meios de comunicação anteriores, como o telefone –
que já permitia uma comunicação interativa - ou o correio – onde a comunicação
recíproca é já uma realidade há muito tempo. Só as particularidades técnicas do ciberespaço,
no entanto, “permitem que os membros de um grupo humano (que podem ser tantos
quantos se quiser) se coordenem, cooperem, alimentem e consultem uma memória comum,
e isto quase em tempo real, apesar da distribuição geográfica e da diferença de
horários.”
Esta evolução
da técnica potenciou uma virtualização geral da economia e da sociedade,
fomentando novas práticas e novos costumes que surgem com a adoção ou a
inserção no nosso quotidiano dessas novas tecnologias.
Vale talvez a
pena refletir um pouco sobre a relação entre a evolução da técnica e a
organização e cultura de uma sociedade. É Levy quem levanta a questão: “As
técnicas determinam a sociedade ou a cultura?” Lévy defende que uma sociedade
se encontra condicionada pelas suas técnicas. “Condicionada, não determinada”,
sublinha o autor.
Para ilustrar
a afirmação anterior, é referido no livro Cibercultura a invenção do estribo.
Este instrumento permitiu o desenvolvimento de uma nova forma de cavalaria
pesada, que contribuiu para a imagem que se construiu do cavaleiro, que pôde
começar a combater de armadura e lança em riste, determinando a importância
desta personagem, contribuindo para as estrutura social do feudalismo. Podemos
então afirmar que o estribo, enquanto dispositivo material, contribuiu para o
feudalismo europeu. Não é possível, no entanto, inferir que o estribo é a razão
desse feudalismo.
Pierre Levy
assume assim que “não há uma "causa" identificável para um estado de
facto social ou cultural, mas sim um conjunto infinitamente complexo e
parcialmente indeterminado de processos em interação que se autosustentam ou se
inibem. (...) Dizer que a técnica condiciona significa dizer que abre algumas
possibilidades, que algumas opções culturais ou sociais não poderiam ser pensadas
a sério sem sua presença.”
É neste
contexto que surge a definição de cibercultura, " o conjunto de técnicas
(materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e
de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço.”
Cibercultura corresponde assim às novas práticas e aos novos hábitos que surgem
dentro do ciberespaço e por causa da virtualização da sociedade.
Há
três princípios incontornáveis quando se reflete sobre o ciberespaço: a
interconexão, a criação de comunidades virtuais e a inteligência coletiva.
Na cibercultura, a conexão é um bem em si. A tendência crescente para a interconexão deixa para trás a noção de canal e de rede emergindo antes uma sensação de espaço envolvente. A cibercultura aponta para uma civilização da telepresença generalizada. Levy sugere a imagem de “um meio informacional oceânico [que] mergulha os seres e as coisas no mesmo banho de comunicação interativa”.
Esta interconexão global e permanente, cria comunidades virtuais que assentes em “afinidades de interesses, de conhecimentos, (...) projetos mútuos” criando relações de cooperação e troca “independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais.” Levy sublinha o facto destas comunidades virtuais envolverem relações e sentimentos fortes, ainda que sejam muitas vezes complementadas por encontros físicos entre os seus elementos. O aspeto humano está sempre presente, o autor observa que: “para seus participantes, os outros membros das comunidades virtuais são o mais humanos possível, pois seu estilo de escrita, suas zonas de competências, suas eventuais tomadas de posição obviamente deixam transparecer suas personalidades.” As comunidades virtuais demonstram o desejo de construção de laços humanos criados em torno de interesses, dentro do ciberespaço, em detrimento de relações criadas com base em relações de poder ou institucionais.
A questão das comunidades virtuais remete-nos para a construção de um coletivo “inteligente, mais imaginativo, mais rápido, mais capaz de aprender”. Torna-se evidente que a humanidade como um todo cresce com a conexão de sinergias, ideias e opiniões. É desta forma que se cria a inteligência coletiva – resultado da possibilidade ampla de partilha de conteúdos que estão à nossa disposição, sendo acrescentados e agregados novos conteúdos todos os dias. É como se cada um, dentro do seu espaço, do seu país, pudesse colaborar de alguma forma na ampliação do conhecimento, levando a aumentar a inteligência coletiva. Levy vai mais longe e afirma que “o ciberespaço talvez não seja mais do que o indispensável desvio técnico para atingir a inteligência coletiva.” Nesta perspetiva, seria o ciberespaço um motor de elevação da humanidade enquanto coletivo pensante.
A cibercultura molda o nosso quotidiano. Alguns exemplos:
Cibercultura
e educação
Não
é difícil perceber que a noção de inteligência coletiva tem implicações
importantes na relação dos indivíduos com o saber.
A
velocidade a que se acede hoje à informação, a oportunidade de aceder a fóruns
e outros meios interativos de busca de conhecimento, a facilidade de acesso a
palestras, vídeos, artigos científicos, altera radicalmente o papel da escola
enquanto transmissora de conhecimentos.
Levy
reconhece que hoje “os indivíduos toleram cada vez menos seguir cursos
uniformes ou rígidos que não correspondem a suas necessidades reais e à
especificidade de seu trajeto de vida.”
A
possibilidade de instituir um “paradigma de navegação”, centrado na busca de
informações e aprendizagem cooperativa no ciberespaço mostra, de acordo com o
autor, “a via para um acesso ao conhecimento ao mesmo tempo massificado e
personalizado.”
Neste
contexto, a diferença entre ensino presencial e a distância terá tendência a
esbater-se, uma vez que, através do ciberespaço, o uso de informação multimédia
e o recurso a pesquisa online tenderá a fazer cada vez mais parte das
realidades educativas. Levy defende que a aprendizagem a distância “em breve
irá tornar-se, senão a norma, ao menos a ponta de lança”, dado que “as
características da aprendizagem aberta a distância são semelhantes às da sociedade
da informação como um todo.”
A
inteligência coletiva tenderá também a modificar a relação professor-aluno, já
que na cibercultura, onde domina a aprendizagem coletiva, a tendência será a
partilha de materiais e informações de forma bidirecional entre professor e
aluno. O paradigma educativo, tenderá a reconhecer ao professor o papel de
motivador , gestor e supervisor das aprendizagens, já que o seu papel enquanto
difusor de conhecimentos perde importância perante a dimensão do ciberespaço. Levy
afirma mesmo que o papel do professor tende a ser de “animador da inteligência
coletiva dos grupos que estão a seu encargo.”
Cibercultura e desinformação
As fake news são um assunto importante da atualidade. Não que a invenção de notícias e a disseminação de inverdades sejam algo novo na história da humanidade, mas o ciberespaço criou as condições para o massificar dessa disseminação, criando um problema verdadeiramente global.
Há
que compreender que o ciberespaço é uma alternativa aos canais de comunicação
social clássicos. Pela sua fluidez, permite “que os indivíduos e os grupos
encontrem as informações que lhes interessam e também que difundam sua versão
dos factos (inclusive com imagens) sem passar pela intermediação dos jornalistas.”
Ao
contrário da difusão unidirecional de informação veiculada pela comunicação
social tradicional, no ciberespaço, a informação emerge de forma horizontal,
sendo possível a difusão em massa de notícias cuja veracidade não é validada.
Na
verdade, o funcionamento do ciberespaço, livre, sem controlo hierárquico,
depende essencialmente “da responsabilidade dos fornecedores e usuários de
informação”.
Revelando mais uma vez o seu otimismo relativamente à cibercultura, Levy acredita que, para além de uma espécie de opinião pública em funcionamento na Internet que a regula, aos administradores dos servidores, muitas vezes “empregados por organismos públicos ou por instituições (...) interessadas em manter sua reputação”, a divulgação de informação caótica e suspeita não é do seu interesse, sendo espectável que eliminem nos servidores sob sua responsabilidade “informações ou grupos de discussão contrários à ética da rede”.
Cibercultura e manipulação do cidadão
A
liberdade de expressão que cada um goza no ciberespaço, a valorização dessa
liberdade na cibercultura, pode levar à sensação que não há manipulação no
ciberespaço. Corresponderá essa sensação à realidade?
É
Levy quem afirma que não podemos acreditar que tudo o que é feito com redes
digitais é benévolo. Nas suas próprias palavras, “isso seria tão absurdo quanto
supor que todos os filmes sejam excelentes”.
É
ingénuo pensar que não há grandes interesses que usam o ciberespaço para
proveito próprio.
Pierre
Lévy aponta o exemplo de Bill Gates como alguém que considera que o ciberespaço
se deve tornar num mercado de bens e serviços a nível global.
Esta
noção de liberalismo ao nível do ciberespaço, pode torná-lo uma enorme base de
dados dos cibernautas, dados esses que podem ser usados, comercializados,
cedidos por motivos pouco claros. O escândalo da Cambridge Analytica, que
envolveu a recolha de dados de usuários do Facebook para influenciar a opinião
de eleitores de vários países, foi um caso paradigmático.
Também
os algoritmos associados a redes sociais e motores de busca coletam os nossos
dados para nos passar informação que nos poderá influenciar a comprar
determinados produtos, apresentando anúncios “individualizados”, que nos são direcionados
devido ao historial do que fazemos no ciberespaço.
Da
mesma forma, existem programas de computador – bots – cuja função é automatizar
processos. Estes bots podem ser programados para interagir nas redes sociais,
insistindo numa determinada ideia – dando a sensação que existe um número muito
grande de pessoas a defendê-la.
Pierre
Levy não refuta o perigo de sermos inadvertidamente manipulados no ciberespaço.
Em vez disso, prefere sublinhar que, paralelamente à “interpretação
mercantilista do ciberespaço”, há que valorizar o facto do ciberespaço poder
dar palco a “atores que dominam certas tecnologias em detrimento dos
intermediários económicos e financeiros habituais”, beneficiando assim “os
pequenos produtores e os consumidores”
Bibliografia
LÉVY, Pierre. CIBERCULTURA. EDITORA 34, 1999


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